COLUNISTAS GPN | O Milagre do Barro em Ouro: Por Que a Fome Também Pula Carnaval?, por Marco Aurélio Zaparolli

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Olhando de cima, das sacadas de granito e das coberturas blindadas onde a elite pedante ostenta seu “garbo” — palavra tão mofada quanto seus privilégios —, a cena parece um erro estatístico. Como é possível? Como aquele corpo, que às seis da manhã se curva no transporte público e às seis da tarde se humilha por um prato de comida, consegue, em fevereiro, sustentar o peso de uma armadura de paetês?

Para os que habitam o topo da pirâmide, o povo é um dado, uma massa miserabilizada, um exército de invisíveis que limpa seus chãos e serve seus vinhos. Para eles, a alegria do pobre é uma petulância, um atrevimento de quem deveria estar apenas lamentando. Mas eles não entendem a química do asfalto. Eles não entendem que, para quem vive no lodaçal da imoralidade imposta pelos de cima, o Carnaval não é festa: é revanche.

O homem que passa o ano inteiro sendo chamado de “ei, você” ou “pessoal”, na avenida é o Rei. A mulher que esfrega o banheiro da madame, sob o som do surdo, torna-se a porta-bandeira de sua própria dignidade. O Carnaval é o único momento em que a hierarquia brasileira, essa construção perversa de séculos, sofre um curto-circuito.

O povo pula Carnaval porque a alegria é a única posse que as elites não conseguiram tributar ou confiscar. É um mecanismo de sobrevivência. É o riso que brota do cansaço, a purpurina que esconde a cicatriz do descaso. Enquanto os “donos do país” se escondem em camarotes exclusivos, vigiando a própria riqueza com medo do mundo, o povo explorado ocupa a rua. E a rua, por direito de suor, é o único solo onde eles não precisam pedir licença para existir.

Eles pulam porque sabem que a quarta-feira de cinzas chegará com a mesma truculência de sempre. Pulam porque o samba é o grito que a fome não consegue calar. É a prova de que, embora miserabilizados pela política e explorados pela ganância, eles ainda possuem o que o dinheiro de propina e o luxo pedante jamais comprarão: a alma invicta.

No final, o Carnaval é o grande espelho invertido do Brasil. Nas calçadas, o povo brilha com ouro de papelão. Nos gabinetes, a elite se esconde com barro no coração. E, por quatro dias, quem é realmente miserável não é quem está na rua, mas quem olha para baixo e não consegue entender por que o povo ainda canta.

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